O aquário – 08
Passei o dia seguinte me dedicando a analisar o enigmático livro encontrado no apartamento de Flak Saramano, levaria um bom tempo para decifrar os hieróglifos que compunham as páginas, a única parte compreensível eram as figuras.
Semelhante a um quebra-cabeça as figuras indicavam algum tipo de segredo ou mistério escondido dentro de um suposto ser humano.
A figura do medalhão era explorada em detalhes por uma dezena das páginas, cada inscrição contida no amuleto possuía uma representação única e estava ligada intimamente com o conteúdo do livro. Deixei-me levar concentrado em minhas descobertas e só percebi quanto tempo fiquei confinado quando o entardecer diminuiu a luminosidade do quarto. Esfreguei os olhos e decidi tomar um banho para despertar os sentidos.
A fome me fez recordar que não havia ingerido alimento algum durante o dia todo, desci em busca de um lanche rápido que a esposa de Rodrigo preparou com toda presteza.
- Parece que não come há dois dias senhor Husselhot – disse a dona da pousada.
- Estou um tanto ansioso, me distraí com alguns afazeres e perdi a noção do tempo, estou faminto.
- Percebe-se. Se quiser outro lanche é só dizer, aproveite que a chapa da lancheira está quente.
Aceitei o convite e me senti bem satisfeito com a refeição rápida, acompanhada de café quente. Quatro dias após me instalar na pousada ainda não sabia o nome da minha anfitriã, a falta de cavalheirismo de minha parte era notável.
- Perdoe-me a intromissão, mas creio que não me recordo de seu nome – disse dirigindo a voz para a mulher que se curvava atrás do balcão tentando alcançar um pacote de papeis toalha.
- Meu nome é Clarice, mas pode me chamar de Lara – a mulher esboçou um sorriso de agradecimento.
- Cheguei exausto no primeiro dia e deixei minha educação do lado de fora, peço-lhe desculpas.
- Não há porque se preocupar, muitos hóspedes entram e saem e nem percebem a minha presença, já estou acostumada, faz parte dos negócios.
- As pessoas vivem presas dentro de si mesmas e não conseguem enxergar que está ao seu lado – disse balançando a cabeça de forma negativa.
- O homem vive de forma egocêntrica e não percebe o quanto isto afeta o resto da humanidade. – disse Lara enquanto limpava a mesa onde eu me encontrava.
- Tenho pensado muito nisto ultimamente, é preciso acontecer mudanças muito fortes em nossas vidas para que possamos enxergar certas coisas – disse levantando-me da mesa.
- Já visitou nosso aquário – disse Lara apontando para a outra extremidade do salão.
- Rodrigo comentou sobre este aquário, mas ainda não tive oportunidade de ver – disse com um meio sorriso.
- Basta caminhar até aquela porta e contornar o corredor, vai gostar muito, é no mínimo relaxante – Lara falava com orgulho.
Caminhei em direção a porta e contornei o corredor em forma de curva, depois de alguns metros já era possível escutar os motores do grande aquário. Uma parede de vidro de quatro metros quadrados exibia um pequeno espetáculo, peixes exóticos com as diversas cores, misturavam-se com cavalos marinhos, crustáceos e águas vivas. A diversidade de cores unida ao movimento era um processo hipnótico, um sentimento de paz e harmonia surgia do interior daquele pequeno paraíso e me fez lembrar o quanto estava distante de Karen e das crianças.
Continua…
Dediquei-me a folhear cada página e anotar separadamente o que os desenhos pareciam significar. Comparei o desenho do medalhão com a peça que estava comigo, eram idênticos, o que me levava a crer que eu e Flak tínhamos os mesmos propósitos ou que nossas vidas tomariam rumos semelhantes.


Duas pousadas recebiam turistas e clientes que buscavam a tranqüilidade do campo. Vários veículos com emblemas e logotipos comerciais espalhavam-se nos estacionamentos, empresários e comerciantes vindos de cidades próximas utilizavam as pousadas. Estacionei o carro na primeira delas e o proprietário me recebeu ainda na porta com um largo sorriso. Ajudou-me com as malas e apertou minha mão com firmeza me saudando com boas vindas.


